Chegue devagar 2021!

Compartilhar

Compartilhar no facebook
Compartilhar no twitter
Compartilhar no email
Compartilhar no pinterest

ODS - ONU

Amanhã será o último dia de um ano inesquecível! A lua cheia e luminosa anuncia um ano novo, como anunciou no final de 2019. Assim foi sempre, se anuncia um ano e nunca sabemos qual será seu recheio! Mas nas minhas 7 décadas de vida, nessa Gaia amada, nunca chegou um ano tão surpreendente quanto esse que acaba, 2020. Um ano com um recheio predominante: a perda de vidas, de todas as formas. Um ano que estará nos livros de história. Um ano que vai gerar muitas pesquisas, análises, monografias de mestrado e teses de doutorado. Por vários ângulos, várias áreas, 2020 será dessecado e estudado e com certeza vai gerar muitas novas compreensões do comportamento humano.


Vivemos grande parte do ano nas janelas e acabamos por amá-las, já que através delas podíamos perceber as pessoas, ver sorrisos e emoções, as paisagens e infelizmente as destruições que promovemos. Nas ruas as máscaras começaram a desfilar e como não poderia deixar de ser viraram acessórios fashion. As tragédias que se revelaram estavam por aí, nos cutucando todos esses anos, mas distraídos pouco percebemos. Como o sinal de “PARE”, que 2020 nos trouxe, pudemos nos dar conta de como o projeto da humanidade, em especial nos últimos 40 anos foi só destruir tudo que tem vida!


Consumimos tudo! Explodiram nas janelas o fogo que se alastrou pelas florestas, os animais feridos, a miséria humana, que só aqui no nosso quintal, revelou 20 milhões do que chamaram de invisíveis. Sim para a maioria dos adormecidos e antropocêntricos humanos, tudo caminhava bem antes da crise na saúde. Só que não… a saúde mostrou a complexidade das nossas múltiplas crises. Grandes descobertas tecnológicas, a ilusão de um conforto, nunca dantes oferecido para a parcela elegante da sociedade, os buscadores da meritocracia, os investidores de papéis, os industriais do crescimento a qualquer custo, enfim os consumidores. Os invisíveis estarreceram o Brasil. Seres, criaturas e não cidadãos, que não tinham CPF, não sabiam lidar com aplicativos, mas que a coisa ia além … não tinham carteira de identidade e muitos nem registro de nascimento.


Como não vimos? Como os que viram não conseguiram gritar: Olhem bem!! E assim foi com tudo. Grileiros, sem nenhum respeito pelas entranhas da mãe terra, e distribuidores de queimadas, afetaram invisíveis por escolha, que só queriam a paz da conversa com suas árvores, seus rios, e pela vida do entorno.  As árvores que queimaram deixaram o solo seco e quente, queimando as patas de nossos felinos, matando aves e outros animais. Mataram animais visíveis e os milhares seres de vida invisíveis. Contribuíram para a diminuição da vida na terra.  Foram tantas barbaridades e especialmente no Brasil fomos premiados… tivemos uma convivência forçada com o diabo, assistimos a um festival de crueldades espalhadas pelos assistentes do diabo, cerca de 30% da população. Eles estarão por aqui em 2021.


Que maravilhoso seria, se amanhã, com a chegada do ano novo tudo ficasse para trás! Mas não será assim! Para nós, que escolhemos, já há décadas, ser os despertadores de futuros, o cenário que vai permanecer é o da luta. Encontrar formas eficazes de manter nossa consciência e de qualquer forma conseguir expandir consciências, onde houver espaço pulsante e fértil. Na nossa casa as janelas continuarão a desenhar nossas ações dentro das empresas, das comunidades e coletivos, que descobriram as lives e com elas seguirão. A solidariedade que ganhou gestão nas favelas e periferias continuará lutando pela vida. As janelas revelaram cientistas bons de conversa. Creio que todos aprendemos muito. Três áreas serão muito comentadas nos livros do futuro: os profissionais de saúde e da ciência e os profissionais da cultura. Os da saúde não puderam ainda escrever, não sobrou tempo para eles! Falaram muito, não perderam a oportunidade de esclarecer a sociedade enfrentando a ignorância que nos dominou. Salvaram vidas, muitas vezes perdendo as suas. Os cientistas ganharam cara e nome saindo das suas cavernas. E os da cultura, mesmo sem recurso, escolheram iluminar nossas almas pelas janelas e varandas reais e virtuais, e assim puderam vazar fronteiras e mostrar o coletivo da nossa humanidade.


Vivemos. Conseguimos, apesar de tudo, viver.  Eles vão contar, cada um de nós poderá contar, mas nada substitui a experimentação. E nós experimentamos. Mais ou menos como falar da ditadura para os jovens de hoje. Eles às vezes escutam com atenção, balançam a cabeça, mas olhando para os olhos deles entendemos o quão difícil é perceber a experiência do outro! Posso imaginar que a cultura vai contar através de filmes, pinturas, músicas, teatro e tudo o mais, ajudando aos que não viveram perceber que aqui e agora recebemos um recado que gritou na nossa cara: mudem, transformem tudo! Está tudo errado porque os alicerces foram construídos sem a base vida. Salvem a vida! E talvez a gente possa escutar a experiência das crianças e dos jovens que viveram 2020. Estranho porque viveram, não vivendo.


A lua cheia está aqui escancarada no jardim que me acolheu desde março, onde todas as vivências se esparramaram. Chegue 2021, mas chegue devagar, para que a gente não crie muitas expectativas, para que a gente possa perceber que um ano novo, para ser mesmo novo, precisa de gente nova, renovada, que faça outras escolhas. Que saiba como expulsar a crueldade, sim … porque a crueldade alinhavou 2020.

(Texto de Nádia Rebouças, colunista Green Nation)

Gostou dessa matéria ?

Compartilhar no facebook
Compartilhe no Facebook
Compartilhar no twitter
Compartilhe no Twitter
Compartilhar no email
Email
Compartilhar no pinterest
Compartilhe no Pinterest

Deixe um Comentário

Green Nation
Privacy Overview

This website uses cookies so that we can provide you with the best user experience possible. Cookie information is stored in your browser and performs functions such as recognising you when you return to our website and helping our team to understand which sections of the website you find most interesting and useful.