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Muito além da experiência


Pegue um punhado de abstração; some marcas e temáticas ávidas por seduzir indivíduos através da emoção e da interatividade; use produtos da Economia Criativa para fermentar a mistura; acrescente, preferencialmente, uma pitada de tecnologia; tempere com a ressignificação a partir da criatividade, da inovação e da inventividade e cubra com a hiper-realidade. Sejam bem-vindos, bem-vindas e bem-vindxs à era da Economia da Experiência!

Há uma mudança sem precedentes acontecendo de forma nada silenciosa na sociedade. É a Economia da Experiência pulsando cada vez mais rápido para oxigenar cidadãos que não se contentam mais com commodities. É a necessidade latente de traduzir informações para promover reflexões, de criar experiências para fazer sentir-se vivo e de provocar sensações para ir ao limite das emoções. É a fome pela extrapolação da imagem e da identidade para o que promove experiências, inéditas e inesperadas, que tem poder exponencial de transformar o mundo. É o caso da recém-lançada loja física da Amazon, em que o consumidor não tira a carteira do bolso para nada.

Provocações sensoriais à parte, definir onde começa e termina a receita da Economia da Experiência é tão difuso quanto múltiplos são os bilhões de vivências que a representam. Há a transição do padrão para a entrega de intangíveis emocionais, sensoriais e interativos. Existem as singularidades dos indivíduos repletas de caos e complexidade criando um molho fervente de universos paralelos que ativam narrativas. Há marcas e causas realizando a mistura de ingredientes em um período de tempo cada vez mais curto e com o imenso desafio de enformar experiências originais e autênticas que, ao mesmo tempo, são cocriadas com quem as consome.

A verdade é que os caldeirões de sensações da Economia da Experiência até podem estar nas mãos das marcas e das causas, mas quem decide o tempero final é o indivíduo. Neste aspecto, residem os maiores desafios da área: o poder das singularidades elevado à milésima potência e a necessidade extrema de valorização e respeito às diversidades. Todavia, há muito mais. A era não é apenas sobre experiências entregues aos consumidores, mas, sim, sobre que tipo de sociedade marcas e causas querem verdadeiramente construir com os indivíduos.

É sobre engajamento em temas sociais considerados por muitos difíceis ou pouco conhecidos. É sobre respeito a todos os ecossistemas e os espécimes que compõem o planeta. É sobre atitudes que vão muito além do ato de comprar ou vender. É sobre dialogar sobre o capitalismo e o próprio consumo e repensar se e quando é genuinamente necessário. É sobre desenvolver novos formatos de viver. É sobre conectar valores. É sobre gerar felicidade. É sobre a valorização da multiplicidade e da singularidade. É sobre olhar o passado para escrever o futuro. É sobre criar vínculos reais a partir de experiências, o que demanda das marcas sensos de propósito e de impacto positivo verdadeiros. É sobre desenhar conjuntamente um mundo novo de verdade.

Para despertar emoções e seduzir indivíduos através da Economia da Experiência, empresas e organizações precisam estar prontas para usar a transição como o fermento de suas receitas de sucesso. Na rotina, devem acrescentar também doses de novas narrativas, várias colheres de multissensorialidade e muitas pitadas de criatividade. Para criar entregas de real valor, deverão desenvolver a capacidade de juntar ficção e realidade para cocriar algo realmente novo. Mas, acima de tudo, devem mostrar vontade concreta de transformar o mundo que se tem naquele que se quer.

 

Texto publicado originalmente em O Dia.


O Dia

26 de janeiro de 2018